Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

É que eu sou descendente de italianos, espanhóis e idiotas.

As a rule of thumb, ser inteligente é melhor que ser burro.

Obviamente existem as exceções: quem não pensa não se angustia, e angústia é uma coisa, objetivamente, ruim.

Porém, em geral e na big picture, ser inteligente apresenta inúmeros benefícios, desde fazer uma boa faculdade e, assim, ter um potencial de realização financeira consideravelmente maior, até não trancar a chave dentro do carro toda terça-feira.

A vida de um idiota é mais dura, mas ainda tem seus benefícios. Deixar a gravata cair na sopa é azar, bater o carro é uma fatalidade, enfiar um canudo de refrigerante no nariz enquanto está numa lanchonete é distração, etc.

Muito já se disse a respeito da inteligência, da busca pelo saber, do esforço consciente em direção a uma vida mais iluminada.

Igualmente bem defendida, a ignorância tem uma legião de apóstolos. Arautos da simplicidade, entusiastas felicidade despreocupada, elogiadores da loucura.

Pouco se disse, porém, da única condição mental que é, de fato, uma grande dor.

A semi-imbecilidade.

Ignorance is a bliss. Intelligence is prudence. Half-Stupidity is something very, very painful.

Uma pessoa inteligente tende a ter menos problemas. Uma pessoa inteligente possui a capacidade de perceber onde algo pode dar errado e, ainda que incapaz de agir preventivamente, é capaz de minimizar os estragos que surgem.

Um imbecil, por sua vez, é incapaz de ver o que vai dar errado. É incapaz de entender o que deu errado. É incapaz de entender porque deu errado. O imbecil é capaz de usar um martelo pra bater um parafuso e exclamar confiante e feliz que “tá tudo bem, porque deu certo!”

O meio-imbecil, porém, é um coitado. Não possui nem a capacidade cerebral do inteligente a ponto de não cometer erros idiotas, nem a abençoada cegueira do imbecil completo que o permite não se culpar pelos próprios erros.


O meio imbecil vê a casca de banana no chão e não consegue desviar.

O meio imbecil sabe que vai dar merda, mas não consegue impedir. Ou entende porque a merda deu, e vê que todas as pistas estavam diante dele, ele que não teve capacidade de somar dois e dois e ver que dá “bum!”.

O meio imbecil tem o telefone de um chaveiro 24 horas no celular porque sabe que ele VAI trancar a chave dentro do carro pela terceira vez essa semana. E ainda é terça-feira.

O meio imbecil vive numa eterna crônica de uma morte anunciada, num prólogo de um pastelão, numa eterna piada em rascunho.

E pior! O idiota possui uma legião de defensores (afinal, a classe tem que se unir), enquanto o inteligente se basta. O meio idiota sofre com sua semi-burrice, incapaz de se bastar por si só, e sem defensores declarados.

Pesada é a coroa da inteligência. Leve é o chapéu da ignorância. O capacete da Semi-Burrice é mediano, mas eu nunca sei qual lado é pra cima.


Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Gosto de Elite

Sabem, depois das premiações na Indústria Cinematográfica em 2008 eu me sinto meio desorientado. Ontem foi a cerimônia da entrega do Oscar, pra qual muita gente do Cinema fora do mainstream torce o nariz, porém a grande jogada este ano foi o “Tropa de Elite” ter vencido o Festival de Berlim.

Algo muito estranho aconteceu. O “Tropa” foi classificado diversas vezes como fascista e agressor aos direitos humanos, surgiu uma boa discussão em toda a mídia e até nos botecos sobre cada ação dos personagens, cada um fica defendendo um ponto e não se chegou à conclusão alguma.

O próprio diretor e atores comentaram que o filme é sim uma crítica ao que acontece com o tráfico e as autoridades policiais do Rio e muita gente continuou chamando de faccio. Temos um porém... se não houve definição, se ficou em cima do muro, não passou a mensagem. Pelo menos aqui no Brasil.

Da primeira vez que eu vi o filme eu saí pensando que ele era simplesmente um sublinhador de opinião... não mudaria muita gente, quem já gostava das ações do BOPE continuaria gostando, quem era contra ficaria mais ainda... porém com um tiro pela culatra ele acabou tecendo heróis em um filme dramático. A idéia foi mostrar o horror da violência e teve um resultado só melhor que o Braddock com o Chuck Norris matando vietcongues a rodo. A pergunta é... Motivo?

Desculpa mas a Europa não possui uma tradição jornalística tão séria que envolveu eu sua história o Notícias Populares, Aqui-Agora e Cidade Alerta. Muito menos um Alborghetti passando de vez em quando. Aquela galera do velho continente que vive no frio teve algumas guerras no território desde que o mundo tem registros escritos, se fiscalizam até hoje por causa dos regimes totalitários e violência policial é atirar em estrangeiro no metrô. A galera pegou asco à sangue, então na cabeça deles o filme NUNCA poderia ser positivo.

Por isso o Urso de Ouro! Rááá será que artista europeu não tem mais maldade? Será que os daqui perderam? No Brasil... A alguns meses atrás, saindo de alguma sala maltratada do circuito alternativo, ou pior, uma reformada por um Banco....


Um homem de cavanhaque, boina e jaqueta de couro de gosto duvidoso falaria para a amiga
artista plástica lésbica com um vestido super in:

-Ah, eu odiei esse filme do BOPE, parece um boot camp com viciado tomando tiro, credo!
-Realmente, achei suuuper fascista, o filme apóia um método da polícia do Rio que fere os Direitos Humanos de uma forma grotesca, assombrosa, esse tal de Padilha deve ser mais um malufista, só que com câmera na mão. É preciso lembrar que esta não é a forma correta de resolver a situação e que as ONG´s fazem SIM um papel importante na...
- Linda, vamo tomar um café? Preciso comprar mais cigarrilha, as minhas acabaram, ó.

Esta situação não me parece nem um pouco inusitada, PORÉM, após o prêmio em Berlim, nossos caros artistas contemporâneos irão rever o filme e repensar a opinião:


-Olha, pensando bem não é tããooo mal assim vai, tem toda uma linguagem que mostra a superficialidade da vida do Capitão Nascimento, eu acho que até senti pena pela dor no coração que o 02 teve ao disparar aquela arma...e a decupagem então?
-Querida você nem sabe do que tá falando, vai apoiar isso agora? Logo você?
-Como assim? Eu sempre gostei desse filme!
-Não é disso que eu to falando, to dizendo que você é uma MACONHEIRA DOS INFERNOS, fica apoiando toda essa indústria do crime...
-Ai AI chega, vamos falar do filme anterior do Padilha, “Ônibus 174”, adoooro!
-Eu nunca vi, você copia pra mim?
....
Finalmentes.... Tropa de Elite é como o Tião Macalé de sunga branca, na praia, na frente de um fusca, ouvindo samba, comendo queijo de coalho na lata: Popular, porém limpinho. E ta na moda.

Sábado, Fevereiro 23, 2008

For a good run

Eu adoraria ser uma daquelas pessoas que adora correr. Maratonas, corridas corporativas, corridas na praia, etc. Odeio todas elas. Não que eu seja sedentário. Isso eu evito a qualquer custo.

Não me venham com aquela conversa Zen de que correr é encontrar-se consigo mesmo. Eu nunca encontrei comigo mesmo correndo. No máximo pus minha língua pra fora. Correr é uma atividade chata, mas que traz um trilhão de benefícios para o corpo, de tal forma que vale a pena até. Desde que se corra por algum bom motivo.

Uma corrida pode significar tantas coisas. Como aquela corrida cinematográfica atrás de seu amor na beira da praia. Ou a corrida dentro de um hospital atrás de um parente acidentado. Ou mesmo a corrida para entregar um documento importante, antes que a Receita Federal feche. E correr para a linha do try então. Essa é a corrida mais difícil da vida de um jogador de Rugby.

Eu tenho uma mania meio besta de dar nome para as coisas que eu faço. Uma das coisas que eu dou nome é para os projetos que eu tenho na minha vida. Fácil assim, ó: eu to a fim de viajar para a Europa, eu crio o Projeto Velho Mundo; eu to a fim de pegar uma específica mina, eu crio o Projeto Coelha.

Dentro desses projetos, cada pequena ou grande atitude, cada chance que eu tenho de trazer o resultado mais pra perto de mim, eu chamo de “Run”. Isso porque meu técnico de Rugby da Nova Zelândia costumava chamar os jogs de “Run”. O campeonato era o objetivo final. Assim, cada treino, cada xaveco, cada tentativa... Cada uma, uma “run”. E o que importa nessa vida é somente uma “good run”.

Mas às vezes uma “good run” não é suficiente. Acho que quase nunca é. E você acaba com uma coleção de grandes corridas, mas nenhum resultado final. Uma coleção de grandes batalhas e péssimas guerras. Uma grande coleções de grandes inícios e nenhuma finalização.

Mas qual o segredo de transformar pequenos atos diários em uma grande conquista? Uns dizem que o que faz as coisas darem certo é um plano estruturado. Eu particularmente acredito que aquilo que transforma tudo é, e sempre será, um golpe. Um grande golpe.

É, no fim das contas, talvez correr faça bem para a alma mesmo.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

O Evangelho da Coragem Segundo Anarcoplayba.

O Malandricus Bar & Vodka muitas vezes se vê como um parlatório em que discutimos conceitos filosóficos de enorme profundidade e sexo oral.

De fato, acreditamos piamente que essa é a grande busca de todo homem: um boquetinho bem feito.

Porém, entendemos que um ser humano não vive só de boquete.
Quer dizer, seria nojento, saca?

Por tal motivo, ocasionalmente, decidimos discutir sobre conceitos filosóficos. E o texto do Stein me fez repensar algumas coisas sobre coragem.

Há algum tempo eu li “Portões de Fogo”, do Stephen Pressfield, que, basicamente, é um romance histórico sobre os 300 de Esparta. Dentre inúmeras questões interessantes colocadas no livro, há uma discussão fortíssima sobre o que é a coragem.

O Espartanos, no livro, passam a vida toda procurando o oposto ao medo, pois entendiam que o medo paralisava o homem no momento da batalha. A dificuldade era, no entanto, encontrar a coragem pura, chamada no livro de andreia.

Coragem, no entender deles, não se media por atos, mas sim por sentimentos.

Se jogar numa batalha para lutar até a morte pode sim ser um sinal de coragem. Mas também pode ser um sinal de burrice, ou de medo de ser chamado de covarde, ou de orgulho, ou mesmo de vontade de morrer.

Um charuto pode ser um charuto ou algo pra você enfiar no cu, seu filho da puta.

Eis meu primeiro ponto de discordância do Stein: abandonar algo bom pra você pode ser um sinal de coragem... ou um sinal de masoquismo. De auto-sabotagem. E se pode ser um sinal de tantas coisas, definir coragem como a capacidade de se arriscar, é dar uma definição, na minha opinião, imprecisa, posto que não define nada: "Todo grande gênio é meio idiota. E todo grande retardado também é meio idiota."
Ou seja, se sua idiotice pode fazer de você um grande gênio ou um grande idiota, ser idiota não é prova de nada.
A pergunta que deve ser feita é: Por que você abandonou algo bom?

Eu me sinto tentado a dizer que abandonar algo bom por desejo de conseguir algo melhor é sinal de prepotência, mas não é essa a minha opinião.

Abandonar algo bom por desejo de conseguir algo melhor é um sinal da capacidade de sonhar. Da capacidade de não se contentar com uma felicidade possível. De não se vender.

Eu falei há algum tempo atrás que um Homem faz o que É certo, não o que vai dar certo. E hoje eu gostaria de refrasear tal afirmação: Coragem é fazer o que É certo, não o que VAI DAR certo.

Isso é uma definição que não define quase nada: O que é certo? Oras, essa pergunta não tem resposta: cada um segue um paradigma do que é certo. Pra algumas pessoas, certo é ficar em um relacionamento até o amargo fim porque você gosta da outra pessoa. Para outras é sair de um relacionamento antes do amargo fim porque você sabe que vai dar errado.

Se você tem câncer terminal, o que é um sinal de coragem: Dar um tiro na cabeça pra acabar com o sofrimento, ou viver um processo de sofrimento longo e doloroso?

Depende daquilo que você acha: pra alguns, morrer é algo terrível demais pra abreviar a vida.
Pra outros sofrer é algo terrível demais pra prolongar a vida.

*-*

O texto do Stein é apenas metade do motivo pelo qual estou escrevendo esse texto.

Há algum tempo, uma ex-namorada disse que se incomodava com o que eu escrevia nesse Blog.

Segundo ela, todas as piadas a respeito de nosso objetivo principal ser o de comer mulheres gostosas a ofendia.

E bem, a parte irônica é que outras pessoas levaram isso a sério também.

Bom, eu sempre disse que o MLDC é, pra gente, algo maior que um blog. Nosso interesse (pelo menos o meu) é criar. O Malandricus é onde eu deixo meus impulsos criativos aflorarem. Todas as piadas, ironias, teses, conflitos, discussões que se passam aqui são discussões que permeiam nossas vidas.

Quando ela se incomodou com a forma como eu escrevia, isso foi algo que me deixou incomodado, pois o blog é um reflexo de uma série de coisas que procuramos levar a sério. Dentre elas, especialmente, a vontade de escrever um texto gostoso de ser lido.

Nós evitamos, ao máximo, usar o blog. Ele não é uma ferramenta. Não serve pra mandar recados, indiretas, beijos pra minha mãe, pro meu pai e pra Xuxa. Eu, pelo menos, apenas evito fazer ponderações que possam diretamente magoar pessoas individualmente (porque isso – quase sempre – é desnecessário). Agora, se pessoas se sentem incomodadas individualmente por algo que é coletivo, so sorry.

Eu não vou me esforçar para NÃO magoar ninguém. Eu não vou NÃO falar algo que eu tenho vontade de falar aqui porque os outros vão me julgar. Eu não vou podar meus textos pra que eles cresçam como um bonsai, esculpidinhos, bonitinhos, plásticos e que eu possa deixar no meu quarto pra mostrar pra alguma gostosa aleatória qualquer como eu sou cool, cuidadoso e atencioso, motivo de sobra pra ela me dar a bunda.

Meus textos são provavelmente a melhor coisa em mim.

Como eu disse anos atrás: eu não sei se eu sou simpático, carinhoso, bonito, interessante, ou se eu sou uma pessoa boa: Eu faço a minha oferta, se tem demanda ou não, estou pouco me fudendo.

Isso era o que eu pensava.

Infelizmente, aconteceu uma das coisas que eu mais odeio na minha vida: Descobrir que alguém falou isso de forma muito melhor que eu.

“You should be more careful what you write. Future employers might read it.”
“When did we forget our dreams?”
“What?”
“The infinite possibilities each day holds should stagger the mind. The sheer number of experiences I could have is uncountable, breathtaking, and I'm sitting here refreshing my inbox. We live trapped in loops, reliving a few days over and over, and we envision only a handful of paths laid out before us. We see the same things every day, we respond the same way, we think the same thoughts, each day a slight variation on the last, every moment smoothly following the gentle curves of societal norms. We act like if we just get through today, tomorrow our dreams will come back to us. And no, I don't have all the answers. I don't know how to jolt myself into seeing what each moment could become. But I do know one thing: the solution doesn't involve watering down my every little idea and creative impulse for the sake of some day easing my fit into a mold. It doesn't involve tempering my life to better fit someone's expectations. It doesn't involve constantly holding back for fear of shaking things up. This is very important, so I want to say it as clearly as I can: FUCK. THAT. SHIT.”

Coragem, pra mim, é seguir o caminho do subjetivo apesar do objetivo.

Ou traduzindo de forma menos pedante: coragem é você fazer o que você sabe ou acha que é certo que é certo apesar das consequências.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Walking Away

Dizia Aristóteles que a maior virtude de todas é a Coragem, porque é a garantia para todas as outras qualidades do ser humano. Sem coragem, dizia ele, seria impossível demonstrar qualquer valor na vida. Aristóteles definia coragem como o equilíbrio perfeito entre o medo e a confiança.

A definição de coragem de Aristóteles vai em desencontro com aquilo que as concepções originadas na Idade Média e do Romantismo, na qual a coragem é a grandez de coração, no sentido de grandeza de espírito, designando o completo destemor diante das situações arriscadas e completo desapego à própria integridade física.

Uma outra definição cavalheiresca de coragem diz que coragem é nunca deixar o próprio desejo lhe permitir o benefício da dúvida; deixar de ter compaixão porque muito se quer uma certa batalha; ou ainda aceitar uma derrota honrosa do que aceitar uma vitória maculada. Essa definição tripartida talvez seja uma das que mais me agradam.

É engraçado que eu tenha começado a falar sobre coragem quando o meu verdadeiro ponto é o vício exatamente oposto, a covardia. Isso porque é somente em contraposição que as coisas realmente saltam aos olhos. E somente da existência dos covardes é que podemos admirar a coragem.

A covardia é, sobretudo, a arte da sobrevivência. É, diametralmente em oposição à coragem, a vontade de preservar-se à despeito das conseqüências à volta. A covardia é um sentimento egoísta, sem dúvida. Só que, ao contrário do que as novelas românticas nos fazem acreditar, a covardia e o egoísmo são responsáveis em grande parte pela nossa sobrevivência e evolução da nossa espécie.

Fica difícil escolher entre levar uma vida de desapego ou uma vida egoísta. Como já dito, coragem é perder com integridade, a covardice, é, portanto, gol de mão no fim do campeonato. Inegável dizer, no entanto, que ganhar é melhor que perder e que gol de mão, no fim das contas ganha campeonato.

O que realmente me levou a escrever sobre a coragem e a covardia não foi o dilema entre a derrota e a vitória, mas sim a capacidade do ser humano de negar-se uma vitória maculada na esperança de um gol aos 45 min. do segundo tempo.

Explico: na minha concepção, a coragem, acima de tudo, é abandonar algo que se tem como certo, algo que lhe é prazeroso e bom, em busca de algo melhor, ainda que essa busca esteja baseada na mera esperança. Essa é a verdadeira busca do homem corajoso.

Abandonar algo bom e que dá prazer, na mera concepção de que mediante seu próprio esforço pode-se conseguir algo melhor é difícil. Eu diria que eventualmente todo ser humano desiste. Mas o covarde faz isso reiteradamente. Na minha concepção, a coragem é busca pela perfeição, ainda que impossível. A covardia, por sua vez, é apegar-se à uma vida segura sem nunca saber o quão longe realmente se poderia saltar.

Uma das minhas mais cruéis concepções de mundo refere-se aos relacionamentos. Ocorre que eu acredito que nunca vai se ter um relacionamento perfeito, que a imperfeição é uma decorrência natural das relações humanas. Mesmo assim eu acredito que nós aprendemos num relacionamento por um certo tempo e, passado esse tempo, o relacionamento simplesmente perde o sentido. Assim, na minha concepção, no auge dos meus 20 e poucos anos, é que os relacionamentos são inevitavelmente passageiros.

Assim, os relacionamentos se tornam cada vez mais duradouros à medida que as pessoas se cansam de procurar algo melhor. As pessoas simplesmente tem medo de não conseguir suportar mais uma caçada e desistem, apegando-se as vantagens de algo imperfeito. Isso não é algo ruim, na verdade trata-se de atingir a maturidade. Infelizmente também significa apegar-se a algo inerentemente imperfeito em detrimento da busca impossível do perfeito. É, portanto, um sinal de covardia, em pelo menos uma de suas concepções.

Mas isso não serve para todas as concepções de coragem. Não serve, por exemplo, para a concepção de Aristóteles, que acreditava que o excesso de confiança seria tão prejudicial quanto o excesso de medo. A virtude está no equilíbrio, dizia ele, e aquilo que é bom não vem necessariamente da abdicação total.

Gandhi dizia que o covarde não pode sentir amor, essa seria a prerrogativa dos corajosos. Eu discordo um pouco da aposta de Gandhi, só que isso não vem ao caso agora. Discutir isso me obrigaria discutir novamente o que é amor e essa não é uma discussão que eu queira entrar. Fato é que persistir em um relacionamento que está destinado para acabar, pelo puro prazer de se sentir em segurança, isso é covardia.

Mas as coisas mudam, certo? Talvez o que hoje seja imperfeito torne-se perfeito. Talvez o relacionamento de hoje pode não dar certo, mas amanhã o mesmo relacionamento pode dar. Por que pular fora, se eu posso me esforçar? Pular fora não é ser covarde? Isso, meus amigos, depende da sua própria concepção de coragem.

Chego, finalmente, ao ponto do título do post: distanciar-se daquilo que gosta, num ato de pura fé, é o maior ato de coragem do ser humano. Abandonar algo bom em busca da esperança é o caminho do grande homem. O caminho do medíocre é sempre preferir fechar as contas com 50% a tentar os 100%. Sair da mesa enquanto se está ganhando a tentar o royal straight flush. É catar uma feia, só porque não conseguiu catar uma mina bonita.

Tudo isso é verdade, até o dia em que eu desista. Acontece com todo mundo. Afinal, é a coragem que alimenta o espírito do homem, mas é o arroz que alimenta sua barriga. E um homem não pode lutar somente com seu espírito.

You've got me dancing and crying; Rolling and flying; Love don't let me go; You've got me drowning in a river; Cold but in fever; Love don't let me go; [Honestly]; [Feeling strange]; [Get on]; [And get it wrong]; [Feel right]; [Come slowly here]; [We walk alone]; [If we got it wrong]; I Walk Away...
- The Egg, Walking Away

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

O Mundo é Um Lugar Cheio de Idéias - (quick post enquanto Stein prepara algo sobre covardia)

Uma descoberta indubitavelmente é uma das coisas mais divertidas que pode acontecer pra um ser humano.

Todos deveriam, um dia, pelo menos, sentir aquela indescritível sensação de “eureka” e sair correndo pelado pela rua. Obviamente, sair correndo pelado pela rua é apenas um tempero na sensação de eureka, mas se você não puder sair correndo pelado pela rua porque descobriu alguma coisa, quando você poderá?

Acho que esse é um dos grandes entraves para o progresso científico, morar em cidades grandes. Mais precisamente, morar em apartamentos.

Imagine-se na melhor cena arquimédica (o filósofo Grego, não o Médico Supremo) quando, de repente, você tem um insight de profundo entendimento a respeito de um problema que estava te atormentando (uma tese jurídica, uma solução de cálculo, ou mesmo aquela resposta ideal pra uma conversa que você está para ter). É NATURAL que você queira sair correndo pelado gritando “eureka!”.

Então você tem que sair do seu chuveiro, ir até o elevador, chamar o elevador, esperar ele chegar e correr o risco, eventual, de encara seus vizinhos estando você nu, com o cabelo cheio de espuma e escorrendo água.

Bing – pára o elevador.
“Desce?”
“Hã... não... sobe... mas o que você está fazendo nu no hall social?”
“Quero descer e gritar ‘eureka’ pelado pela rua.”
“Tá, mas você está ensaboado e molhado e... nu...”
“Hummm... melhor usar o elevador de serviço...”

Não me refiro aqui às grandes descobertas. A invenção da lâmpada, a descoberta da penicilina, o desenvolvimento da teoria da relatividade, todas essas descobertas, notáveis, e que estão fora do alcance do ser humano médio, provavelmente justificariam um “atalho” pela janela.

Pense nisso da próxima vez que você ouvir falar que alguém pulou pela janela. Ele pode ser um gênio e você não sabe.

Mas fora as grandes idéias, eu possuo um carinho especial pelos improvisos.

Sim, improvisos, as populares “gambiarras”, sabe?

Usar uma camisinha pra consertar o registro de água da casa da sua namorada, quebrar nozes no batente da porta, pasta de dente pra tapar buracos de pregos na parede, etc.

É muito fácil realizar essas pequenas tarefas quando você tem as ferramentas adequadas, mas improvisar, isso sim é uma arte.

Por outro lado, é muito importante saber separar uma boa idéia de uma má idéia.

Na guerra, por exemplo, alguns improvisos geniais foram feitos.

Desde usar serpentina instantânea (sim, aquelas de lata que normalmente usam no carnaval) para encontrar “tripwires” (fios invisíveis de nylon que disparam minas direcionais), até mesmo usar tampax pra fechar buracos de bala (ei... aquilo serve pra controlar sangramentos, não?).

Tais idéias, frutos de momentos de presença de espírito de homens e mulheres que precisavam tomar uma decisão rápida num momento difícil, são exemplos de brilhantismo.

Por outro lado...

No mesmo exército, alguns médicos estavam pensando em como diminuir o desconforto causado por vôos em altas atitudes aos quais os pilotos de caças estão freqüentemente sujeitos.

Bom, alta atitude é igual a baixa pressão atmosférica. A solução para tal problema envolveria alguma coisa que estimulasse a circulação sanguínea. Um vasodilatador. Cialis.

Pera.

Então, pra algum cientista, a idéia de “diminuir o desconforto de pilotos da aeronáutica” é colocar um bando de homens, de pau duro, no meio do deserto, por 20 horas seguidas?

Bom, se eu estivesse no meio do deserto, cercado por macho de pau duro, realmente, a última coisa que ia me preocupar era a altitude.

Pra falar a verdade, se eu estivesse no deserto cercado por homem de pau duro, a primeira coisa que eu ia querer era entrar num avião e ir pra QUALQUER lugar que fosse longe dali.

Portanto, gênios da humanidade, antes de ter uma idéia, lembrem-se: Pau duro muitas vezes é um problema e raramente é uma solução.

Sábado, Fevereiro 09, 2008

Sobre Recomeços, Ratos, Retrospectos, Renascimento e Reveillon.

Não e um post que eu queria escrever... Mas depois do post de retrospectiva do Stein, é um post que precisa ser escrito.

No final do ano passado, foi levantado o dado numerológico de que 2007 foi um ano 9, o que significa um ano de encerramento, enquanto 2008 seria um ano 1, ou ano de começos.

Por uma grande ironia do destino, na mesma situação, surgiu uma discussão (como dito pelo Stein) mais real do que filosófica.

Um amigo nosso que namorava uma menina do quinto ano da faculdade terminou o namoro porque a menina ia para o interior. A justificativa oferecida foi que cedo ou tarde ia dar merda e que era melhor que acabasse sem sofrimento para nenhum dos dois.

Bom, minha opinião a esse respeito é simples: eu discordo dessa atitude.

O que você precisa pra ter um namoro é gostar da pessoa. Enquanto as duas pessoas se gostarem, vale à pena tentar. Em um caso-cenário perfeito, os namoros só acabam quando as duas pessoas não se gostam mais. Em um caso-cenário normal, o namoro acaba enquanto uma pessoa ainda gosta da outra. No pior caso-cenário, acaba com as duas se gostando.

Terminar um namoro por medo do que vai acontecer dali a um ano, seis meses, uma semana, duas horas é trocar um sofrimento futuro e incerto por um sofrimento presente e imediato.

Intercalar textos com citações poéticas faz as coisas parecerem mais verdade e, como disse Vinícius, "o futuro é uma astronave que tentamos pilotar; não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de voltar".

Lembro-me que um amigo disse uma vez que pra você decidir se deve viver ou não, você deve colocar numa planilha sua expectativa de felicidade contra sua expectativa de sofrimento. Se no futuro o sofrimento for maior que a felicidade, se mata.

O problema (dentre vários) é que essa análise ignora o fato de que o futuro é, por definição, impreciso. A vida não tem fluxo de caixa passível de ser quantificado.

Após uma rápida exposição do meu ponto de vista, o Stein simplificou a discussão: "Anarco, esse seu argumento é muito bonito e muito Zen, mas não tem utilidade prática. É inviável."

Eu até concordaria com o Stein. Problema: e não discuto fatos com argumentos. As coisas funcionam assim comigo. Pelo menos funcionaram.

Ao invés de tomar a atitude de terminar algo que potencialmente não me ofereceria mais nada, preferi deixar rolar até onde desse. Saí do escritório em que eu trabalhava e em menos de duas semanas comecei em outro que vai ser, objetivamente melhor pra minha carreira.

O ano do porco nove terminou deixando tudo o que precisava ficar pra trás encerrado. Começa o ano do rato.

E, novamente, como dito anos atrás: é hora de dar um Ctrl+Alt+Del. (sim, as coisas sempre se repetem e as grandes mudanças são em silêncio)

Eu, doravante, no primeiro dia do ano, declaro que 2008 é o ano do Bope:

Vamos na calma... Na tranqüilidade... Sem correria...

A gente treinou pra isso um tempão, vamos sem afobação que vai dar tudo certo.

A gente conhece esse terreno, é rotina pra gente, mas tem que ficar esperto.

Vai lá, olhou, fatiou, passou. Olhou, Fatiou, Passou.

A gente faz o nosso e tá tudo resolvido.

Entrou, cumpriu a missão, saiu.

Não quero ninguém nesse bar tentando virar herói!