Bom, eu estou devendo ao menos duas grandes retrospectivas. Uma sobre o ano de 2007 e outra sobre o fim da minha faculdade. Também devo estar devendo uma retrospectiva sobre os dois últimos anos, que devem ser somados para uma full picture que valha a pena.
Retrospectivas são como conselhos. Uma ótima maneira de se reciclar o passado e fazer com que ele valha mais do que realmente vale. Mas, sem dúvida nenhuma retrospectivas são também ótimas maneiras de se lembrar, odiar e amar tudo o que se aprendeu num determinado período de tempo. É isso que eu vou tentar fazer.
2007 me colocou na berlinda. Recém chegado de um outro mundo eu tive que descobrir porque eu voltei. Vejam, eu tinha acabado de voltar de um ano fora, viajado por trocentos lugares diferentes, visitados templos agitados e praias tranqüilas (e vice-versa) e de certa forma, e de uma hora para outra, eu estava de volta na mesma casa, convivendo com as mesmas pessoas, mesmo grupo de amigos e mesmas oportunidades. Agora, difícil foi engolir que depois de tudo aquilo que eu tinha vivido eu poderia voltar para a mesma vida de antes.
Não dá.
Eu tinha uma frase que eu costumava falar que era mais ou menos assim (deve estar no Malandricus até): o mundo dá voltas, pára no mesmo lugar, mas você nunca mais é o mesmo. É como a pele cicatrizada. Primeiro tem o machucado, depois o ferimento sara, mas a cicatriz é permanente. Pode ser pequena, pode não atrapalhar, mas está lá; a sua pele nunca mais será a mesma. Mas como toda cicatriz tem lá o seu charme, e como toda experiência por pior que seja tem seu valor, eu voltei ao Brasil com a dúvida: seria possível voltar a ser e fazer as coisas que eu era/fazia?
Pra essa pergunta não existe resposta. Por mais que possivelmente eu pudesse voltar a ter a mesma rotina que eu tinha em 2005, eu não sei se poderia voltar a ser a mesma pessoa de 2005 e, o mais importante, será que eu quero ser a mesma pessoa de 2005? Demorou uns 3 meses para eu entender que não. Talvez em 2005 eu fosse mais eficiente para fazer ou deixar de fazer certas coisas, tipo pegar mulheres randômicas e feias na balada, e hoje eu não seja mais tão bom em fazer isso. Talvez eu me contentasse mais fácil em 2005, mas aumentar minhas expectativas é algo bom, não ruim.
Foda-se, deixemos de ser tão abstratos.
Em 2007 eu me dispus a fazer mais do que meu corpo, mente e alma agüentavam, e eu paguei por isso. Eu me dispus a terminar com tudo aquilo que tinha pontos soltos, finalizar tudo aquilo que eu tinha por fazer, pedir desculpas por tudo aquilo que eu precisava pedir. Eu decidi terminar a faculdade, mesmo que para isso eu não pudesse trabalhar. Decidi terminar relacionamentos suspensos, mesmo que para isso eu perdesse uma foda garantida. Eu decidi pedir desculpas, mesmo que para isso eu tivesse que admitir erros que para mim não fui eu que cometi.
2007 foi o ano da catarse.
Eu efetivamente fiz dois anos de faculdade em 2007. O 4° e o 5° ano juntos. É claro que para isso eu tive de abdicar de todo o resto da minha vida, não pude trabalhar, fazer exercícios, perdi forma física, perdi tempo, dinheiro, baladas e sexo. No fim das contas eu perdi até minha barba, que começou a cair, segundo meu médico, por causa do excesso do stress que eu estava passando.
Bom, com alguns buracos redondos na barba, eu fechei o ano desempregado, sem profissão, um bacharel de direito sem OAB, já que esta foi adiada. Não sou graduando, mestrando, advogado, não sou nada. Ainda bem. Tenho a plena convicção que meu tempo de universidade acabou, e que é melhor não ser nada, do que ser algo que já não significa mais nada. Fim de uma grande fase que vai ganhar outra retrospectiva, quando a ficha cair.
Em 2007 eu também pedi bastantes desculpas. Algumas indevidas, admito. Mas fiz para limpar meu Karma. Algumas dores que se sente não têm causa ou causadores, mas doem do mesmo jeito. Algumas vezes é preciso assumir um pecado alheio para ser perdoado. Às vezes você próprio não admite que errou. Na melhor das hipóteses, eu coloquei tudo junto, dilui a culpa entre todas e pedi perdão pela massa, o que de certa forma atenuou um pouco de cada. Life goes on.
2007 foi um ano difícil, mas foi um ano bom. Foi um ano em que eu me ferrei bastante, mas aprendi muito. Eu só consegui me formar nos últimos 3 segundos que restavam, mas me formei. Eu tive dengue, mas me curei. Eu perdi muita coisa, mas também ganhei. Eu falhei. Mas aprendi. Eu me permiti novas experiências e com isso, novas coisas aconteceram.
Se eu pegar cada coisa individualmente, os acontecimentos, as vitórias e as derrotas, 2007 foi um ano ruim. Mas não é assim que se mede a vida. A vida não é um monte de eventos desconexos, mas sim um intrincado quebra cabeça de segundos que se encaixam perfeitamente. O ano foi bom. 100%. De outra forma, ainda bem que o ano acabou. Não acho que eu agüentaria mais um mês de 2007. O ano deu o que tinha que dar.
Tem algumas boboseiras que se encaixam tão bem na nossa vida, que é difícil acreditar que não são verdadeiras. Acontece com o horóscopo, por exemplo. Por mais que a gente saiba que é tudo inventado, a gente precisa do horóscopo para falar da gente mesmo, das nossas características. Nessa mesma esteira, falaram para mim que 2007, na numerologia é um ano 9, que, ímpar, é um ano de transformação, mas por ser de número 9, significa que é um ano de fins. Um ano para acabar com as coisas.
Faz um enorme sentido para mim.
A numerologia está dizendo que 2008 é um ano 1, cheio de recomeços e reinícios, um ano de novas jornadas e novos aprendizados. A menos que em meu 2008 não aconteça nada, tenho certeza em dizer que 2008 será um ano de novos começos. Não tem nada de velho na minha vida para continuar. I flushed.
Quanto às baladas, relacionamentos, projects... Não sei dizer. O fim do ano foi bem propício, mas mesmo assim ainda arrisco pensar que o momento ainda está por vir. Acho que com os campos abertos, novas saídas e novas entradas, o meu jogo estará muito mais conciso e sólido. Acho que 2008 merece isso também. Acho que estou mais apto a identificar ao que me dedicar...
Feliz 2008. Eu, em 2008, quero desfrutar um pouco da paz que eu construí para mim em 2007. Essa foi a primeira virada que eu usei cueca branca. Ainda bem que quando eu entrei no ano ainda estava branca. Vocês sabem como é roupa de baixo branca. Sujeita aos menores dos inconvenientes. Como qualquer ano desses.